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Privatizar a CGD

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 3 Junho, 2008

Via Insurgente, tive acesso a este post no Small Brother, no qual Ricardo Francisco defende a privatização da Caixa Geral de Depósitos. Embora não me oponha frontalmente a alguns dos argumentos apresentados, não os vejo como suficientes para tornar este tema como uma prioridade para um qualquer programa de Governo. Ricardo Francisco apresenta quatro razões para privatizar a Caixa:

1. O Estado não pode regular e actuar no mercado ao mesmo tempo (suponho que seja isso que queira dizer com “ser fornecedor”) – Por princípio parece-me correcto, mas este argumento peca por falta de evidência. Não me recordo de no sistema financeiro nacional os restantes players se terem queixado em processos relevantes de favoritismo à CGD por parte do regulador, ou inclusivé de concorrência desleal/preços predatórios pelo banco do Estado.
2. O Estado não precisa de um banco para distribuir riqueza – Verdade, mas (1) essa nem sequer é uma razão apontada para o Estado ter a CGD; e (2) também não é por se privatizar a Caixa que o Estado vai distribuir melhor a riqueza.
3. Qualquer coisa como, a Caixa nem sempre usa critérios económicos nos seus financiamentos/investimentos – Mais uma vez, gostaría de ver evidência disso. Casos isolados como a compra da Compal têm situações comparáveis (ainda que menos mediáticas) no sector privado.
4. A Caixa tem baixos retornos sobre o capital próprio – Se o sistema financeiro nacional é referência, isto não corresponde à verdade. Perdendo cinco minutos para ir aos respectivos sites, pode-se verificar que o retorno sobre o capital próprio da CGD em 2007 foi de 21%, o que não compara mal com os 14% do BCP, 17% do BES ou 22% do BPI.

Deste modo, nenhuma das quatro razões parece ser suficientemente forte para mobilizar um processo de privatização. Isto sem sequer me alongar sobre os problemas de tentar privatizar a Caixa. Como disse aqui, ideias liberais que acabem por centrar-se em medidas como esta de privatizar a Caixa – de dificil viabilidade e reduzidos benefícios – tenho muitas duvidas que alguma vez venham a servir a causa dos seus promotores.

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2 Respostas

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  1. Ricardo G. Francisco said, on 5 Junho, 2008 at 2:20 pm

    Caro Francisco Camarate de Campos,

    As razões que dei são as digeríveis por Sociais-Democratas.

    A raazão de base é que o Estado não deve ser empresário. Muito menos ter o peso que tem na Economia. Esta mistura é uma das maiores fontes dos problemas da classe política. Os políticos têm muita influência na vida das empresas e de forma muito pouco controlada via as empresas públicas.

    A questão devia ser porque é que o Estado deve deter a CGD? Sabe dar essa resposta?

  2. Francisco Camarate de Campos said, on 6 Junho, 2008 at 2:31 pm

    Caro Ricardo,

    Muito obrigado pelo comentário. Antes de mais, podería dar-lhe várias razões porque o Estado pode argumentar a necessidade de ter um banco público (talvez nenhuma delas convincente): a importância de num sector muito fulcral para a economia ter um agente de referência, o interesse em responder na mesma moeda enquanto países próximos seguem essas opções, ter um caminho para acomodar no curto prazo políticas expansionistas, etc. Não indo por aí , porque essa nem foi a sua pergunta, nem o seu comentário inicial. A sua pergunta foi mais prática: “porque é que o Estado deve deter a CGD?”. Isso implica que é uma entidade que já existe, a Caixa Geral de Depósitos, e o seu ponto é que o Estado devería vendê-la. Acontece que existindo a CGD para privatizá-la temos que incorrer num processo relativamente longo e complexo. A minha resposta a essa questão é que as quatro razões que aponta não são suficientes para terem o meu apoio para agora dedicarmos tempo a isso. Não é que não simpatize com alguns dos pontos que levanta como é o caso de “o Estado não deve ser empresário”, mas hoje, 6 de Junho, este tema não devería ser um tema em discussão. A razão é que o problema principal de Portugal julgo que não está no Estado deter a Caixa, aliás neste momento a Caixa está a prestar concorrência que dificilmente teremos se a partirmos aos bocados. Se os problemas mais importantes não estão no facto do Estado deter a CGD e para um governo se aventurar nesse caminho sería necessário uma carga de trabalhos e a “decapitação” de uma série de ministros, não vale a pena irmos por aí. Há tantas outras batalhas mais relevantes que é um erro ir por algo muito mediático e de aparente retorno limitado.


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