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Crise alimentar

Posted in Desenvolvimento by Francisco Camarate de Campos on 7 Maio, 2008

 

Muito tem sido escrito nos últimos dias sobre a crise alimentar. O aumento dos preços agrícolas é um daqueles temas que, como diz Krugman sobre outro assunto, os economistas consideram que têm o “direito” de dizer alguma coisa. Vale a pena ler aqui, aqui, aqui e aqui. É preciso algumas reservas na leitura de algumas opiniões, mas em geral começa a existir algum consenso. As mensagens que considero mais relevantes incluem:

 – O problema tem sobretudo origem no aumento da procura mundial.

 – O aumento dos preços alimentares não é mau em si. Como em várias outras situações, há vencedores e perdedores. Veja-se por exemplo aqui e aqui. Para países exportadores líquidos (ex: Vietnam), o efeito do aumento dos preços é positivo. Pelo contrário, para importadores em termos líquidos o efeito é negativo (ex: Bolívia).

– Dentro de cada país, também existem efeitos distributivos: as comunidades rurais têm a ganhar com o aumento dos preços, enquanto que as urbanas têm mais a perder. Os pobres urbanos têm normalmente maior poder para protestar nas ruas e para serem ouvidos. Daí os protestos que se têm assistido (exemplo do contrário, são por exemplo as greves dos agricultores na Argentina, depois do governo ter aumentado os impostos sobre as exportações para níveis próximos dos 50%).

– O efeito de aumento da procura é mais permanente do que temporário, mas existe uma componente que sería evitável e que se espera que os países desenvolvidos tenham a capacidade política de reduzir. O consumo de biocombustíveis é entendido como ineficiente no combate ao aquecimento global, tendo se desenvolvido em países como os EUA devido ao poder de lobbies de agricultores junto dos seus governos. Para o futuro, não faz sentido que continuem a desvirtuar a procura de produtos como o milho.

– As soluções para a crise alimentar devem ter duas componentes: uma de curto prazo, antes da oferta começar a compensar o excesso de procura, e outra de longo prazo. No curto prazo, evitar situações de pobreza extrema através de por exemplo a distribuição de food stamps poderá ser uma via. A médio prazo, as visões são mais díspares, mas é fundamental o aumento da oferta, seja via aumentos das escalas de produção em países em vias de desenvolvimento, seja via maior abertura ao comércio internacional. A primeira parece plaúsivel e estar a desenvolver-se aos poucos, com os riscos de conflitos sociais na migração de pessoas do campo para a cidade. A segunda tem de se ter algum cuidado como é feita – por exemplo, a redução dos subsídios agrícolas na Europa, à partida apelativa, deverá ter o efeito imediato de aumentar os preços internacionais dos produtos, aquilo que aparentemente queremos evitar.

 

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