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Ainda sobre a crise alimentar

Posted in Desenvolvimento by Francisco Camarate de Campos on 10 Maio, 2008

José Manuel Pureza escreveu no Arrastão um post interessante sobre a crise alimentar. Comenta também o mesmo tema no Público. Concentrando-me no que escreve no Arrastão, o Professor de Economia da Universidade de Coimbra levanta algumas questões relevantes e procura dar-nos algumas lições de como ler os acontecimentos. Apesar de perceber os seus argumentos, sinto-me na obrigação de questionar algumas das posições e realçar que algumas questões não deveriam ser interpretadas de uma forma tão determinística.

José Manuel Pureza começa por apresentar um caso específico, o Haiti, deixando a entender pelos exemplos acima que se trata de uma situação genérica entre os países em vias de desenvolvimento. Não sei se por falta de espaço, decidiu excluir da análise outros países como o Vietnam que beneficiaram da abertura dos mercados e da subida dos preços agrícolas. Veja-se por exemplo este estudo (crise-alimentar) que sugere que uma subida de 10% dos preços do arroz diminui a pobreza no Vietnam em 0,7 pontos percentuais (e 1pp nas zonas rurais). Se alguma coisa, as políticas actuais anti–globalização em países como o Vietnam ou a Tailândia (subida das tarifas sobre as exportações), estão a contribuir para a pressão sobre o preço de produtos como o arroz.

Apesar de existirem países que ganham e países que perdem, fiquemos, então, pelo Haiti, uma vez que a sua situação é preocupante. José Manuel Pureza diz-nos que “o Haiti importa 80% do arroz que consome e ao dobro do preço anterior”. Acreditando que esta é a situação actual neste país, convém não esquecer também que a abertura das fronteiras permitiu que os haitianos comprassem arroz a preços mais baratos do que a produção local durante todos estes anos – caso contrário, não teriam abandonado a agricultura local. Além disso, embora seja verdade que o Haiti esteja neste momento a sofrer da subida dos preços internacionais, não há nada que nos diga que isso não aconteceria se se tivesse mantido fechado. Nessa situação, os produtores locais, conhecendo que as alternativas internacionais estão mais caras, provavelmente aproveitariam para também subir os preços.

Ainda neste exemplo do Haiti, teria tido mais cuidado com dois pontos. Em primeiro lugar, José Manuel Pureza utiliza o arroz como ilustração do fenómeno da globalização, quando se há discussão é que o arroz não é suficientemente global – o comércio internacional de arroz representa apenas 5 a 7% do seu consumo. Depois, deixa entender que os subsídios agrícolas em países como os EUA estão a influenciar esta crise, quando na prática, se alguma coisa, estão a manter os preços artificialmente mais baratos.

Em relação às lições que nos deixa, na primeira, diz-nos basicamente que maior escala agrícola e maior inovação correspondem a custos mais caros de produção do que aquela que se consegue em pequenos lotes. Se assim é, porque é que os agricultores optam por essa via? Paul Collier, pelo contrário, afirma:

The remedy to high food prices is to increase food supply, something that is entirely feasible. The most realistic way to raise global supply is to replicate the Brazilian model of large, technologically sophisticated agro-companies supplying for the world market. To give one remarkable example, the time between harvesting one crop and planting the next, in effect the downtime for land, has been reduced an astounding thirty minutes. There are still many areas of the world that have good land which could be used far more productively if it was properly managed by large companies. For example, almost 90% of Mozambique’s land, an enormous area, is idle.

A segunda lição resulta de um argumento muito utilizado hoje em dia para explicar a crise alimentar. Segundo esta visão, os investidores internacionais têm especulado sobre as commodities para compensar a má performance dos mercados financeiros resultante da crise do subprime. Embora mais recentemente isto até possa fazer sentido, este argumento é em si muito especulativo. Se assim fosse verdade, para além da subida dos preços, existiria um aumento dos open interests dos contratos de futuros sobre estes produtos desde que se iniciou a crise imobiliária (Set. 2007). Na realidade, como se pode ver aqui e aqui, o aumento do volume de transacções é anterior à crise do subprime, indicando que não está directamente relacionado.

Por último, esquecendo Sócrates, que pouco tem a ver com este caso, embora concorde com a necessidade de ter cuidado com “choques liberalizadores” como a solução para o problema (talvez não pelas as mesmas razões), tenho alguma dificuldade em perceber como é que termos “hortas nos centros das cidades” nos ajudaria a resolver este sério dilema.

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Crise alimentar

Posted in Desenvolvimento by Francisco Camarate de Campos on 7 Maio, 2008

 

Muito tem sido escrito nos últimos dias sobre a crise alimentar. O aumento dos preços agrícolas é um daqueles temas que, como diz Krugman sobre outro assunto, os economistas consideram que têm o “direito” de dizer alguma coisa. Vale a pena ler aqui, aqui, aqui e aqui. É preciso algumas reservas na leitura de algumas opiniões, mas em geral começa a existir algum consenso. As mensagens que considero mais relevantes incluem:

 – O problema tem sobretudo origem no aumento da procura mundial.

 – O aumento dos preços alimentares não é mau em si. Como em várias outras situações, há vencedores e perdedores. Veja-se por exemplo aqui e aqui. Para países exportadores líquidos (ex: Vietnam), o efeito do aumento dos preços é positivo. Pelo contrário, para importadores em termos líquidos o efeito é negativo (ex: Bolívia).

– Dentro de cada país, também existem efeitos distributivos: as comunidades rurais têm a ganhar com o aumento dos preços, enquanto que as urbanas têm mais a perder. Os pobres urbanos têm normalmente maior poder para protestar nas ruas e para serem ouvidos. Daí os protestos que se têm assistido (exemplo do contrário, são por exemplo as greves dos agricultores na Argentina, depois do governo ter aumentado os impostos sobre as exportações para níveis próximos dos 50%).

– O efeito de aumento da procura é mais permanente do que temporário, mas existe uma componente que sería evitável e que se espera que os países desenvolvidos tenham a capacidade política de reduzir. O consumo de biocombustíveis é entendido como ineficiente no combate ao aquecimento global, tendo se desenvolvido em países como os EUA devido ao poder de lobbies de agricultores junto dos seus governos. Para o futuro, não faz sentido que continuem a desvirtuar a procura de produtos como o milho.

– As soluções para a crise alimentar devem ter duas componentes: uma de curto prazo, antes da oferta começar a compensar o excesso de procura, e outra de longo prazo. No curto prazo, evitar situações de pobreza extrema através de por exemplo a distribuição de food stamps poderá ser uma via. A médio prazo, as visões são mais díspares, mas é fundamental o aumento da oferta, seja via aumentos das escalas de produção em países em vias de desenvolvimento, seja via maior abertura ao comércio internacional. A primeira parece plaúsivel e estar a desenvolver-se aos poucos, com os riscos de conflitos sociais na migração de pessoas do campo para a cidade. A segunda tem de se ter algum cuidado como é feita – por exemplo, a redução dos subsídios agrícolas na Europa, à partida apelativa, deverá ter o efeito imediato de aumentar os preços internacionais dos produtos, aquilo que aparentemente queremos evitar.