CODFISH WATERS

Pop philosophy

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 26 Junho, 2008

Ao contrário do que à partida se poderia esperar, são poucos os termos e categorias da filosofia política que passaram para o discurso político do dia-a-dia. Não sei qual será a explicação para esta parcimónia numa tão barata fonte de legitimação e pseudo-solenidade retórica.

Assim de repente lembro-me apenas de dois que passaram para o uso corrente: “contrato social” (Rousseau), usado hoje por Helena Roseta, e “imperativo categórico” (Kant). Este último é particulamente mal usado. Quando se ouve fica-se a saber que vem ai despesa pública, tipo “apoiar os agricultores é um imperativo categórico do governo”. É usado quase como sinónimo de uma obrigação tão forte que não deve ser discutida, o que, como se imagina, dá muito jeito em política.

Já a expressão “contrato social” usa-se normalmente em discursos sobre falta de legitimidade do regime ou em questões de direitos sociais. A expressão é invariavelmente conjugada no futuro. Há sempre a necessidade de um “novo contrato social” ou de “renovar o contrato social”. Nunca é “vamos sair do contrato social” porque assume-se sempre que um contrato é algo excelente. Este não é o lugar para discutir a debilidade deste conceito de Rousseau, mas ao menos neste caso, e ao contrário do que se passa no imperativo categórico, a expressão é usada num espirito próximo da intenção do filósofo francês.

Certamente estou a esquecer-me de outras (agradeço e-mail ou comentário caso alguém se lembre). 

Há uma expressão que nunca se generalizará devido ao seu carácter negro, perturbador e realista (caracteristicas dispensáveis na retórica). Trata-se de uma das expressões filosóficas que mais impacto teve em mim – foi um dos meus muitos “awakenings from a dogmatic slumber”. Trata-se da famosa opinião/descrição que Thomas Hobbes (1588-1679) faz da vida no “estado de natureza”, sem lei, sem ordem:

Whatsoever therefore is consequent to a time of war, where every man is enemy to every man, the same consequent to the time wherein men live without other security than what their own strength and their own invention shall furnish them withal. In such condition there is no place for industry, because the fruit thereof is uncertain: and consequently no culture of the earth; no navigation, nor use of the commodities that may be imported by sea; no commodious building; no instruments of moving and removing such things as require much force; no knowledge of the face of the earth; no account of time; no arts; no letters; no society; and which is worst of all, continual fear, and danger of violent death; and the life of man, solitary, poor, nasty, brutish, and short. (Leviathan, 1651)

 

     

 Hobbes                                                                                                    Kant                              

Discursos políticos no cinema

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 28 Abril, 2008

Não gosto deste discurso, mas a sua raridade merece uma referência: não existem muitos exemplos de discursos tão marcadamente ideológicos como este e tão marcadamente de direita (de um tipo de direita, pelo menos). O discurso vem do livro Fountainhead, de Ayn Rand. Como se sabe, Rand foi uma autora de culto para muita gente nos anos da guerra fria (e mentora de, entre outros, Alan Greenspan). Embora concorde com algumas das ideias da obra dela (as que não são dela…), o estilo dá-me arrepios – o “self-righteousness”, a fúria, o espírito vingativo, etc. Talvez com algum exagero, Whittaker Chambers, comentando um outro livro famoso de Rand, referiu: “From almost any page of Atlas Shrugged, a voice can be heard, from painful necessity, commanding: ‘To the gas chambers–go!’…”. 

O filme é de King Vidor e o papel principal – Howard Roark – está a cargo de Gary Cooper. Foi a própria Ayn Rand que adaptou o argumento.

(Via American Rhetoric)

Os melhores discursos políticos no cinema II

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 24 Abril, 2008

“Greed, for lack of a better word, is good” – Depois de Shakespeare, é difícil manter o nível. Mas este famoso discurso de Gordon Gekko/Michael Douglas no filme Wall Street é já um clássico – e é bastante político, ao contrário do que se poderia pensar. Ao longo dos anos o “for lack of a better word” foi caindo, tendo ficado na cultura popular apenas o “greed is good” como grande slogan do capitalismo dos anos 80. Ver todo o discurso permite colocar o “greed” em contexto e perceber que o uso do termo é feito de uma forma sofisticada e inteligente (para além disso, está muito bem filmado – reparem por exemplo no movimento de pessoas durante o discurso).

Os melhores discursos políticos no cinema

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 24 Abril, 2008

“We few, we happy few” – o chamado St. Crispin’s day speech, da peça Henry V, de Shakespeare, é um dos mais extraordinários discursos alguma vez escritos. Ao longo dos anos tem sido estudado e admirado nas academias militares e escolas de gestão. Esta versão é a de Kenneth Branagh.