CODFISH WATERS

Candidatos PSD II

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 9 Maio, 2008

A Visão apresenta esta semana um questionário aos 5 candidatos à Presidência do PSD. Das respostas, pouco há a retirar. Destacaria, no entanto, o seguinte:

– Sobre a redução dos impostos em 2009, Manuela Ferreira Leite respondeu com ar superior “Ninguém, com seriedade, face aos dados hoje disponíveis, pode definir um cenário macroeconómico para 2009”. Se for eleita Presidente do PSD, penso que vai passar o tempo a dar-nos lições de economia. Disse este comentário apesar de sabermos que o mínimo é  que o Governo tenha uma noção das linhas gerais do Orçamento que vai apresentar dentro de cinco meses….enfim. Pedro Passos Coelho e Santana Lopes dizem sim e não, respectivamente. Talvez o último tenha a melhor resposta.

– É sintomático que Manuela Ferreira Leite, como única mulher, tenha sido a única dos cinco candidatos que não respondeu à pergunta: “Consigo, como vai o partido captar mulheres para cumprir a Lei da Paridade em 2009?”

– Sobre a redução do peso do Estado, Ferreira Leite responde “o peso do Estado é um conceito global e não sectorial”. Muito interessante, mas se pudesse especificar o que isso quer dizer, agradecíamos. Sobre o mesmo tema, Pedro Passos Coelho e Santana Lopes defendem a redução do Estado em sectores chave da economia. Aliás, neste campo, Passos Coelho na entrevista ao Correio da Manhã da semana passada defendeu a saída do Estado da Caixa Geral de Depósitos e da RTP, isto como forma de se apresentar ao eleitorado como “liberal”. Julgo, no entanto, que para ser conotado como tal, esse não é o discurso. Não tenho nada contra a venda da CGD, mas também não tenho muito a favor. Para o trabalho que daria a um governo esse processo, não sei se é uma guerra que valha a pena comprar. Duvido que seja isso que melhore os nossos níveis de crescimento, o que devería ser o enfoque de qualquer candidato. Que eu saiba, a CGD tem limitado muito pouco – se alguma coisa – a actividade de outros bancos, não sendo assim um entrave ao desenvolvimento do sistema financeiro. Para tomar medidas como terminar com a obrigação de determinados portugueses só receberem a sua pensão/salário através da CGD, parece-me que não é necessário privatizá-la. Na prática, acredito que se Passos Coelho ou outro quer ter um discurso com ideias liberais (muito em voga na blogosfera), então devería posicionar-se por exemplo mais nas reformas do mercado laboral, em que Portugal está na posição 157 em 177 países no Doing Business Report do Banco Mundial. Outras áreas que deveria utilizar no seu discurso liberal, e que me vêm à cabeça neste momento, são por exemplo o aumento dos provedores de serviços ao Estado; o apoio à regulação de sectores centrais da economia; o aumento da competição em serviços tradicionalmente públicos como a saúde, educação, gestão de resíduos; o desenvolvimento de medidas que premeiem a inovação e o empreenderismo privado, etc. Tudo isto e talvez mais, mas duvido que privatizações como a CGD seja o caminho – isso dará muito trabalho e provavelmente muito pouco retorno.

O fim do PSD?

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 1 Maio, 2008

Acabei de ouvir, na TVI, Miguel Sousa Tavares a colocar a hipótese do fim do PSD. O argumento é que nenhuma facção vai conseguir conviver com a que ganhar, o que poderá levar a uma cisão. Os comentadores são pagos para fazer profecias ousadas. Mas embora não concorde com a premissa base de Sousa Tavares – que o partido não aguenta lutas ferozes de facção porque não tem ideologia e porque só quer poder – a tese do fim do PSD não me parece totalmente descabida.

Mas o meu palpite assenta na premissa oposta: de que o actual combate pela liderança é o mais ideológico da história do PSD (descontando os anos 70). Se perguntarmos a qualquer pessoa qual foi até hoje a mais marcante eleição pela liderança do PSD, a maior parte, senão todos, dirá que foi a que se seguiu à demissão de Cavaco Silva do cargo de primeiro-ministro e que colocou frente-a-frente Fernando Nogueira, Durão Barroso e Santana Lopes. Mas alguém pensa que esse debate foi ideológico? Esse sim foi um combate por poder, pelos despojos do dia, pela primazia no processo de renovação geracional do partido. Ironicamente, o único que tentou discutir ideologia nesse congresso foi Menezes, com o “elitista, sulista e liberal” – os assobios que se seguiram mostraram que o partido não queria discutir facções nem ideologias, mas sim pessoas.

Ao contrário, a campanha em curso está a assumir uma natureza muito mais “divisionista” e ideológica. As divisões têm merecido a maior parte da atenção. A dicotomia bases-elite não é de agora mas que nunca foi tão central e brutal. Três dos muitos exemplos:

Marco António Costa questionou ainda se o futuro líder do partido «será um candidato com um projecto basista, na linha do velho PPD, ou alguém que vai repensar politicamente o partido, como um movimento de quadros superiores, com pouco contacto com a realidade».

Alberto João Jardim revelou ainda que a Comissão Política Regional do PSD-M está preocupada com a fragmentação do partido e «sobretudo pela tentativa de uma certa burguesia dos salões de Lisboa e do Porto, com o apoio de um conhecido empresário de televisão, tentar desvirtuar um partido popular e social-democrata como é o PSD»

“Faço votos para que aquele que vencer as próximas eleições faça com que haja uma verdadeira representação no Parlamento daqueles que trabalham por conta de outrem e não apenas de empresários e profissionais liberais”, disse.”Falo com o coração, mas o recado está dado”, acrescentou Mendes Bota.

Quanto à ideologia – um aspecto que tem sido menos salientado* – começou esta semana a criar-se um claro fosso entre por um lado Manuel Ferreira Leite, com uma posição fiscally conservative, e por outro Pedro Passos Coelho e Pedro Santana Lopes, com posições do tipo supply side economics misturadas com keynesianismo – descer impostos, estimular a economia, etc. O título deste artigo da Lusa diz tudo: “Passos Coelho e Santana defendem nova política económica, coincidindo nas críticas à aposta excessiva na redução défice”.

Seguindo esta via Passos Coelho e Santana Lopes optaram portanto por um caminho de diferenciação clara face a Ferreira Leite mas também face a Sócrates. A Ferreira Leite resta afirmar-se como mais eficaz do que Sócrates, o que talvez não cole pois, caso ganhe, o PS focará a campanha no track-record de Ferreira Leite na pasta das finanças. Mas o caminho da diferenciação radical também tem custos. Tudo depende de se saber se a generalidade dos portugueses interiorizou as vantagens de um deficit controlado, se estão dispostos a deitar a perder os sacrificios realizados e se se lembram desse grande estímulo económico provocado pela despesa de Guterres.

Os partidos podem e devem ter debates ideológicos e lutas internas de clarificação. Quando não matam, estes movimentos tornam os partidos mais fortes. Mas podem matar.

* – Ao ponto de alguns nem o verem. Veja-se por exemplo este post de Luís Rainha, no 5 dias, que cai no facilitismo de uma certa esquerda que adora pensar que apenas ela pensa.

Candidatos PSD

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 28 Abril, 2008

Como esperado, as eleições no PSD estão animadas. Em relação aos três principais candidatos, tenho neste momento estes comentários:
• Pedro Santana Lopes é candidato não se sabe bem porquê. Será que (ainda) pensa que tem a obrigação de estar “disponível para combate” sempre que há eleições? Não sei se Pedro Santana Lopes sabe que, caso ganhe, será o candidato do PSD às eleições do próximo ano! Não faz sentido nenhum que o PSD apresente às eleições o líder que foi afastado por José Sócrates, sobretudo nas condições em que foi. Eu presumo que Santana Lopes saiba disso, o que significa que concorre para perder – uma pessoa que já foi primeiro-ministro, concorre às eleições do seu partido só para perder, só para aparecer na televisão? É andar demais a brincar à política para o meu gosto. Para bricadeiras, mais valia terem apresentado o Ribau Esteves como representante da ala: ao menos esse sabe falar de futebol.

• Manuela Ferreira Leite é uma candidata conhecida pela sua seriedade, capacidade de trabalho, e boas intenções. Os seus méritos não serão suficientes, no entanto, para ganhar a Sócrates, desde que este não se desoriente. Aliás, olhando para a curta história da democracia estável portuguesa, não houve até ao momento quem conseguisse roubar uma eleição a um primeiro-ministro minimamente estabelecido. Manuela Ferreira Leite será criticada pelo seu trabalho nas contas públicas, mas é à partida uma líder para aguentar eleitorado, preparar as águas para quem se segue e eventualmente lutar pelo fim da maioria absoluta do PS (sobretudo se a economia desapontar). Talvez experiente demais para andar a fazer fretes, mas reconheça-se o seu esforço.

• Pedro Passos Coelho é uma incógnita. Depois dos anos na JSD*, eu e a larga maioria dos portugueses pouco ouvimos dele. Por muito ou pouco que simpatize com ele, não faço ideia do que pensa. Apesar de ter trabalhado na política todos estes anos, é estranho não ter tido ainda um cargo executivo. Usando uma métrica com muito pouco interesse apresentada por Santana Lopes nas eleições de 2005, Pedro Passos Coelho tem 150 mil hits no google.pt, enquanto Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes conseguem 247 e 326 mil, respectivamente. Pedro Passos Coelho não me parece que tenha página no wikipedia (“Luís Menezes, importas-te de criar uma?”). Nesse sentido, de todos os candidatos, Passos Coelho é o que necessita mais urgentemente de apresentar as suas ideias (terça-feira). Pode ser uma cara que os portugueses queiram ouvir, mas é um tiro no escuro. Tem o apoio de Nogueira Leite, Rita Marques Guedes, Miguel Relvas, entre outros. Maioria dos apoiantes, jovens políticos “looking for change”. Tem agora também o apoio da concelhia do Porto, apesar de não ter passado no requisito número um de não ter curso superior. É uma solução de mudança, apesar de estar no partido há mais de 20 anos. Pode ser a simpatia que contraste com os momentos de irritação de Sócrates. Até pode ser que seja, mas ainda é cedo para dizer. Veremos que tão interessante se torna.

*Pela forma como se tornaram, tenho as minhas reservas em relação em quem passou muito tempo nas Jotas, mas Passos Coelho ao menos fez um bom trabalho.

Elitista, Sulista, Liberal e Quadro Superior

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 22 Abril, 2008

 

Marco António Costa questionou ainda se o futuro líder do partido «será um candidato com um projecto basista, na linha do velho PPD, ou alguém que vai repensar politicamente o partido, como um movimento de quadros superiores, com pouco contacto com a realidade».