CODFISH WATERS

A história do fim do fim da história

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 12 Maio, 2008

Há uns anos Frederico Lourenço adaptou a Odisseia para crianças. Hoje resolvi adaptar um post do 5 dias – “o fim do fim da história” – para adultos: 

Era uma vez a esquerda e a direita e os seus amigos socialismo, social-democracia e conservadorismo. Viviam todos num reino chamado Ocidente. Um dia a direita acordou e disse “venci-te, socialismo…o jogo acabou”. Mas no fundo, no fundo, quem tinha ganho era a social-democracia.

A esquerda era mal comportada e fazia muitas asneiras…pelo que teve que parar e descansar um bocado. “ufa, estou cansada”. A direita estava toda repimpona, pois viu um muro a cair.

Viviam-se os dias do Caranguejo, e o sol brilhava no reino do Ocidente. Era primavera e o amor estava no ar: o conservadorismo gostava da social-democracia, mas tinha vergonha de o dizer.

De modo que o passo seguinte da direita foi avançar para o neo-conservadorismo (um primo – ou talvez não – do conservadorismo, que tinha acabado de chegar ao reino). 

Os cacos estão à vista de todos. A história está a chegar ao fim. Quando? Logo que o mundo se consciencialize verdadeiramente da dimensão do buraco em que os maus mergulharam a América. 

Existe por vezes a tendência para infantilizar a política, para cair num antropoformismo de categorias e conceitos, para tratar processos históricos como se fossem decisões tomadas em quartos cheios de fumo de charuto, pelas 2 da manhã  (“o passo seguinte da direita foi…”), para simplificar em demasia, encontrando causas primordiais para tudo. É uma tendência natural, mas que se deve procura combater e não abraçar, como se constata no citado post. E julgo que o facto de ser um post em vez de um artigo de fundo não desculpa estes aspectos – ninguém é obrigado a explicar a evolução política da humanidade nas últimas duas décadas em 5 curtos parágrafos.

Sociólogos Sociófilos

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 23 Abril, 2008

A propósito deste post, comecei a pensar sobre a relação entre as diferentes ciências sociais e as ideologias políticas. Imediatamente pensei na sociologia, pois nenhuma disciplina académica é tão ideologicamente marcada. Mais que isso, apenas a sociologia é clara e inequivocamente ideológica. Com isto não se pretende dizer que as outras disciplinas das humanidades são imunes à política. Têm fases, evoluem, há modas, lutas entre tendências, etc. Mas apenas a sociologia é constante e consistentemente de esquerda. Este facto, por si só, devia gerar fortíssimas dúvidas sobre o carácter de “ciência social” da sociologia.

Alguns estudos recentes nos EUA têm tentado quantificar estes aspectos. Uma forma simples de o fazer, embora com limitações, consiste na aferição das simpatias partidárias dos académicos. Claro que o carácter idológico da sociologia é mais profundo do que isso – relaciona-se com a natureza da disciplina, com os próprios objectos de estudo, metodologia, etc. Mas as atitudes dos praticantes são também relevantes. Este estudo realizado em 11 universidades da Califórnia, e que é analisado neste blog, sugere uma forte tendência de esquerda entre os académicos em geral…

The study, by Christopher F. Cardiff and Daniel B. Klein, finds an average Democrat:Republican ratio of 5:1, ranging from 9:1 at Berkeley to 1:1 at Pepperdine. The humanities average 10:1, while business schools are at only 1.3:1. (Needless to say, even at the heartless, dog-eat-dog, sycophant-of-the-bourgeoisie business schools the ratio doesn’t dip below 1:1.)

…que se torna esmagadora na sociologia:

What department has the highest average D:R ratio? You guessed it: sociology, at 44:1

Há várias tentativas de explicar esta “parcialidade”. Algumas explicações dizem respeito especificamente à sociologia, outras relacionam-se com a predominância do pensamento de esquerda nas universidades em geral e nas humanidades em particular. Sobre esta questão mais vasta, houve em Dezembro último uma interessante discussão no blog de Gary Becker e Richard Posner.

David Mamet

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 18 Março, 2008

A esquerda nova-iorquina está em estado de choque com a “conversão” à direita de uma das suas estrelas, o dramaturgo e encenador David Mamet. Num artigo de opinião no Village Voice, Mamet refere que enquanto escrevia a sua última peça começou a pensar imenso sobre questões políticas e chegou à conclusão que toda a vida foi um “brain dead liberal”.  

A parte mais divertida do artigo é a descrição de como a sua mulher percebeu o que se estava a passar antes do que ele: 

We were riding along and listening to NPR [estação de rádio liberal]. I felt my facial muscles tightening, and the words beginning to form in my mind: “Shut the fuck up” she prompted. 

Mamet refere que durante várias decadas escreveu peças que retratavam uma visão sobre a natureza humana diametralmente oposta à que depois defendia enquanto “liberal”. Hoje acha particulamente errado o carácter derrotista da esquerda americana: 

I’d observed that lust, greed, envy, sloth, and their pals are giving the world a good run for its money, but that nonetheless, people in general seem to get from day to day; and that we in the United States get from day to day under rather wonderful and privileged circumstances-that we are not and never have been the villains that some of the world and some of our citizens make us out to be, but that we are a confection of normal (greedy, lustful, duplicitous, corrupt, inspired-in short, human) individuals living under a spectacularly effective compact called the Constitution, and lucky to get it. For the Constitution, rather than suggesting that all behave in a godlike manner, recognizes that, to the contrary, people are swine and will take any opportunity to subvert any agreement in order to pursue what they consider to be their proper interests.

O artigo tem ainda uma frase bastante Hayekiana:

But if the government is not to intervene, how will we, mere human beings, work it all out? I wondered and read, and it occurred to me that I knew the answer, and here it is: We just seem to. How do I know? From experience. I referred to my own-take away the director from the staged play and what do you get? Usually a diminution of strife, a shorter rehearsal period, and a better production. The director, generally, does not cause strife, but his or her presence impels the actors to direct (and manufacture) claims designed to appeal to Authority-that is, to set aside the original goal (staging a play for the audience) and indulge in politics, the purpose of which may be to gain status and influence outside the ostensible goal of the endeavor.

De entre os vários artigos escritos a propósito deste assunto, vale a pena ler a descrição de outras famosas “conversões” no Independent.

A Remodelação e o “Mensis Horribilis” de José Sócrates II

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 31 Janeiro, 2008

No seguimento disto, creio que tratar esta remodelação como uma reacção a pressões acaba por, paradoxalmente, ajudar o primeiro-ministro. Como se viu no debate de hoje, Sócrates tirou a semana para “brincar à esquerda”. Ao colocar uma ministra da saúde tão obviamente próxima de Manuel Alegre mas ao mesmo tempo tão pouco forte politicamente – e portanto fácil de controlar – Sócrates apazigua a ala esquerda de uma forma muito económica. Idem aspas no que diz respeito a Pinto Ribeiro. Esta remodelação é fraca porque é limitada. E é limitada porque Sócrates, fazendo “política”, fez uma aposta arriscada – a de que bastaria uma ligeiríssima mudança para recuperar o élan do governo, para contentar a ala esquerda e para dar a imagem de que ouve as populações. Falha no primeiro objectivo, mas julgo que ganha nos outros dois – e com poucos custos na sua perspectiva, pois nada de verdadeiramente estrutural muda no governo.

Tratar esta decisão como uma cedência a pressões, como José Pacheco Pereira e tantos outros o fazem, é fazer um favor a Sócrates, porque coloca o ênfase na cedência e não no “grau” dessa cedência. Creio que o ponto não é o que Sócrates cede, é sim o pouco que ele cede, principalmente tendo em conta o que pode ganhar. Custa-me admitir, mas acho que politicamente Sócrates jogou bem. Mau para o país, no entanto, porque era necessária uma mudança mais alargada.