CODFISH WATERS

O que é que isto quer dizer?

Posted in Uncategorized by Francisco Camarate de Campos on 20 Junho, 2008

A Comissão terá que acompanhar o funcionamento dos mercados, por forma a que se possa identificar e combater tudo aquilo que for uma especulação que nada tem a ver com o funcionamento transparente e próprio desses mercados. José Sócrates, via Público

Será que significa encerrar mercados de derivados? Ou especular ela própria comprando puts sobre commodities?

 

Reading tea leaves

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 16 Abril, 2008

Três meses e meio:

  • Substituição do ministro da saúde a meio de uma reforma e não apenas por razões de estilo, como ficou claro no caso de Anadia e outros;
  • Cedência aos sindicatos dos professores, que simpaticamente autorizaram uma avaliação pouco digna desse nome – isto após um inquérito da eurosondagem no qual 64% da população era contra a suspensão da avaliação e 84% considerava que os professores não deviam fazer mais greves; 
  • Aplicação residual do quadro de mobilidade especial enquanto instrumento de redução do número de funcionários públicos, que tem sido substituido por novos e caros planos de reformas antecipadas; 
  • Primeira descida de impostos desde pelo menos 2001, com o corte de 1 p.p. no IVA.

Como já foi referido por muitos, estes sinais sugerem uma travagem nas reformas e o início da campanha eleitoral de 2009. O dilema de Sócrates é o dilema de todos os políticos perante o ciclo eleitoral: persistência, pondo em risco maioria absoluta, cedência, pondo em risco resultados obtidos. Mas como a ciência política não é uma ciência, são tantas as excepções que é difícil afirmar regras. Guterres, por exemplo, poderá ter falhado a maioria absoluta mais pelas cedências do que pela firmeza. As últimas semanas mostram uma tendência para uma postura menos restritiva. Veremos o que os próximos meses nos reservam, porque também existem acções de sinal contrário. Mas o verdadeiro problema de Sócrates é que nenhum primeiro-ministro subiu tanto a parada em relação à disciplina orçamental, pelo que se houver um deslize, a queda de credibilidade será mais acentuada. Um problema relevante mas menos importante, mais do teatro político, é que Sócrates tem um talento natural para dar más notícias, para estar mal disposto, mas não é muito convincente a dar boas notícias e a distribuir benesses. 

Penso que neste momento Sócrates acha que pode ter o bolo e comê-lo, o que é ilustrado pela forma como justificou a descida do IVA: a ideia de que se pode aliviar os portugueses um bocadinho porque o deficit está mais controlado. O primeiro ministro acha que conquistou uma almofada ou folga, que faz com que possa ser “severo”, mas não tanto como no passado, e “simpático”, mas não tanto como o PS quer. Esta estratégia é arriscada porque em política as posições cinzentas até podem ser correctas mas são sempre mais ambíguas. E quando as posições são ambíguas gera-se uma tendência para a intensificação da pressão política e para as guerras de bastidores no governo. Poderá bastar a conjugação de um menor controlo de Sócrates sobre a despesa pública com um acentuar da crise internacional para que esse inesperado deslize se dê, pondo em causa o trabalho do governo e, mais importante, o esforço que o país fez nos últimos anos. 

Previsões

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 11 Abril, 2008

No seguimento de nova redução da previsão de crescimento económico para Portugal por parte do FMI, o primeiro-ministro José Sócrates foi muito determinado a explicar que a organização internacional está a ser “excessivamente pessimista”. Num comentário à saída do Parlamento, Sócrates afirmou:

Confio em quem conhece melhor o país, o governador do Banco de Portugal. Mantemos a nossa previsão, não temos nenhuma razão para alterar (RTP1).

O governador do Banco de Portugal, por outro lado, parece querer demarcar-se deste “excessivo optimismo” e em comentários à TSF, deu “um puxão de orelhas” ao governo por continuar tão confiante. É provável que Sócrates muito em breve tenha que engolir mais uma vez as suas afirmações, o que poderia ser evitável se tivesse sido mais comedido. Por muito boas dinâmicas internas que Portugal possa ter, é apenas natural que sejamos afectados pelo abrandamento internacional. Há um factor, a crise internacional, que Sócrates e Portugal não controlam e que deveria ser elemento determinante nos comentários do primeiro-ministro. Entendo que o Governo pretenda dinamizar a confiança dos investidores, mas se o que diz está constantemente a ser posto em causa, perde toda a credibilidade. O executivo mantém uma previsão de 2.2% e o governador fala em taxas “certamente abaixo dos dois por cento”. Esperemos para ver os próximos capítulos, mas nesta situação sinto-me mais tentado em apostar em Constâncio do que em Sócrates.

Dito isto, é preciso cautela com as previsões do FMI. Da minha experiência em mercados financeiros, estas análises multi-países tendem a esquecer idiossincracias particulares. Quando se reduz expectativas por choques que afectam todos os países, normalmente faz-se género tábua raza, sem ter em conta as especificidades de cada região. Se há um país com dinâmicas próprias, é comum “levar por tabela”. Eu não sei se o número do FMI é mais ou menos válido que o do Banco de Portugal (ainda não há um número actualizado oficial), mas aqui não se aplica necessariamente o dito bem português que o “que vem de fora é que é bom”.

Adenda – Graças a um comentário de um leitor, tive acesso às declarações de Vitor Constãncio (http://www.tsf.pt/online/common/include/streaming_audio.asp?audio=/2008/04/noticias/11/constancio.asx) e apesar de os factos que comentei acima serem reais (há uma diferença clara entre o discurso de Sócrates e de Constâncio), parece que o Governador do Banco Portugal nunca utilizou a palavra Governo no seu depoimento, ou seja, não desafiou frontalmente José Sócrates como a notícia do Público faz transparecer. Aparentemente o Público fez uma interpretação abusiva do comentário de Constâncio. A leitura mais uma vez a tirar é que temos que ter muita cautela na confiança que depositamos nalguns jornais.

Líderes incoerentes

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 27 Março, 2008

Uma das características fundamentais de um grande líder é a coerência nos actos e afirmações. Infelizmente temos assistido na política em Portugal a constantes inconsistências de comentários e decisões nos vários partidos que nos governam. No governo actual, a incoerência envolveu decisões como a Ota e em especial na voz do primeiro-ministro, os impostos. Em 2005, enquanto candidato a primeiro-ministro, José Sócrates dizia “Não estou de acordo com subida de impostos”. Menos de 100 dias depois foi o que se viu. Há 15 dias atrás, Sócrates dizia que uma descida de impostos seria “leviana e irresponsável”. Ontem foi o que se viu. Os agentes económicos gostam de estabilidade para poderem decidir. A imprevisibilidade governativa, sobretudo em questões fiscais, é o maior inimigo do investimento.

Mas as incoerências não ficam pelo governo rosa. O PSD, aquando da subida do IVA, falava através do deputado Miguel Frasquilho, em “efeito nefasto sobre a evolução económica em todo o país”. O então líder Marques Mendes comentava tratar-se de um aumento“imoral”, tendo em conta que o financiamento das SCUTs se mantinha. Em contraposição, o agora líder da oposição Luís Filipe Menezes diz que a redução do IVA é “irrelevante e casuística”. Claro que o líder do PSD já é outro e passaram uns anos, mas custava muito admitir qualquer coisa como: “é um passo no caminho certo, mas não suficiente para termos a carga fiscal que havia antes deste Governo ter iniciado funções”*, sobretudo depois de o PSD ter proposto recentemente uma descida dos impostos? Talvez não fosse comentário suficiente para aparecer no top5 do noticiário das 20h, mas pelo menos, daría-lhe alguma credibilidade para os devaneios que venha dizer a seguir.

Eu sei que na política como no futebol é díficil que o que hoje é verdade amanhã não seja mentira, mas o mínimo dos mínimos de coerência seria útil para melhorar a credibilidade das decisões e opiniões políticas em Portugal.

*além de que dificilmente o governo poderia ter ido muito mais longe do que foi nesta altura do campeonato.

As tentações de mudança na educação

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 20 Fevereiro, 2008

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Os professores vão fazer uma manifestação nacional em sinal do seu descontentamento contra as políticas “autistas” da Ministra da Educação. Os “docentes”, como todos nós, habituaram-se a não apreciar muito essa coisa chamada “trabalhar”, e por isso não há nada como fazer umas greves e umas manifs para apanhar um pouco de sol. Não, não é isso!! Desta vez o sindicato preparou-se de antemão para as críticas e decidiu fazer a manifestação num sábado!! Muito obrigado pela consideração pelos nossos alunos, sinceramente, foram uns queridos.

As mudanças (não gosto da conotação que ganhou a palavra reforma) nos sistemas educativos são uma verdadeira trabalheira em qualquer parte do mundo. Teria sido mais fácil se os vários países (entre os quais Portugal) não tivessem compensado a inicial falta de condições para ensinar com a introdução de mordomias e regalias que neste momento são muito difíceis de alterar. Mas agora já não há nada a fazer em relação a isso. Os salários já aumentaram, mas as regalias ficaram.

Agora é obviamente necessário intervir, mas como se prova tanto cá, como por exemplo aqui, é muito difícil combater os poderes instalados da “classe”. Muitos a todo o momento dirão que as alterações devem ser graduais, outros dirão que se devem ser muito agressivas…é difícil encontrar o adequado equilíbrio e é certamente difícil encontrar as normas mais acertadas…mas também difícil é ser contra o princípio de avaliação de desempenho dos docentes ou de alinhamento dos interesses dos professores com os dos alunos. Difícil, mas há e haverá quem ainda hoje de “umbigo” feito se orgulhe da “fibra de ser contra as medidas” e que “refile” de quem sucumbe “às óbvias tentações” da mudança.

Agora neste ambiente, começo a concluir, que por um lado que ainda bem que não há real oposição em Portugal (pelo menos neste campo). Se Sócrates precisasse mesmo dos votos da esquerda era certo que nenhuma destas mudanças acabariam por ser realizadas no próximo ano e meio, como já se provou pelo sofrido destino que levou a Saúde. Dúvido que o governo vá muito longe na introdução de reformas porque os sindicatos continuam com a vantagem de que cada das suas “manifs, greves ou vigílias” ter muito mais audiência jornalística que qualquer decisão do governo. Mas pelo menos a tranquilidade política dá-nos alguma esperança que algo seja feito. Seria talvez útil para isso que o governo se auto-reanimasse, passasse algumas das propostas reformas, e deixasse de vez o estado moribundo com que entrou neste ano de 2008.

Secção “Livros sobre Portugal”

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 19 Fevereiro, 2008
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No Público:

Qual é o balanço que José Sócrates faz dos seus três anos de Governo, que se cumprem amanhã? Positivo, muito positivo. Que imagem tem o primeiro-ministro da sua acção e das suas políticas? Reformistas. Alguma coisa correu mal? Não, tudo correu lindamente.

A Remodelação e o “Mensis Horribilis” de José Sócrates II

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 31 Janeiro, 2008

No seguimento disto, creio que tratar esta remodelação como uma reacção a pressões acaba por, paradoxalmente, ajudar o primeiro-ministro. Como se viu no debate de hoje, Sócrates tirou a semana para “brincar à esquerda”. Ao colocar uma ministra da saúde tão obviamente próxima de Manuel Alegre mas ao mesmo tempo tão pouco forte politicamente – e portanto fácil de controlar – Sócrates apazigua a ala esquerda de uma forma muito económica. Idem aspas no que diz respeito a Pinto Ribeiro. Esta remodelação é fraca porque é limitada. E é limitada porque Sócrates, fazendo “política”, fez uma aposta arriscada – a de que bastaria uma ligeiríssima mudança para recuperar o élan do governo, para contentar a ala esquerda e para dar a imagem de que ouve as populações. Falha no primeiro objectivo, mas julgo que ganha nos outros dois – e com poucos custos na sua perspectiva, pois nada de verdadeiramente estrutural muda no governo.

Tratar esta decisão como uma cedência a pressões, como José Pacheco Pereira e tantos outros o fazem, é fazer um favor a Sócrates, porque coloca o ênfase na cedência e não no “grau” dessa cedência. Creio que o ponto não é o que Sócrates cede, é sim o pouco que ele cede, principalmente tendo em conta o que pode ganhar. Custa-me admitir, mas acho que politicamente Sócrates jogou bem. Mau para o país, no entanto, porque era necessária uma mudança mais alargada.

A Remodelação e o “Mensis Horribilis” de José Sócrates

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 31 Janeiro, 2008

É difícil imaginar que há umas semanas atrás a esmagadora maioria dos comentadores e blogs dizia que um dos grandes problemas do país era a ausência de oposição ao governo. Se por oposição se entende apenas os partidos, o argumento tem peso. Mas em muitas análises o ponto era que Sócrates pura e simplesmente tinha o campo aberto, que ninguém lhe fazia frente. Esse argumento era fraco na altura. Hoje, depois de Alcochete, do episódio do referendo e da remodelação, já ninguém se atreve a defende-lo.

Antes pelo contrário! Como é típico nestes casos, o zeitgeist passou de um extremo para o outro, sem passar pela casa de partida. Agora, de acordo com o consenso que se lê hoje, Sócrates “cede” a Cavaco, “apazigua” Alegre, “pisca o olho” ao Bloco de Esquerda e é “forçado” pelo PS. Antes, Sócrates “não ouvia” as populações, agora “responde à rua”. Antes Sócrates “tinha secado o PS”, agora “responde ao aparelho”. Era temerário, é temeroso.

Estes rótulos absolutos vendem (e são tentadores) mas dão quase sempre mau resultado. Sócrates não começou a fazer política este mês. É ingenuidade suprema pensar que um primeiro ministro decide no vácuo. A todo o momento tem que escolher umas batalhas e evitar outras, tem que apaziguar certas facções e acirrar outras. No caso de Sócrates, essa ingenuidade é reforçada pela ideia algo mitificada que se criou à volta de Sócrates, e também à volta de Cavaco quando era primeiro ministro – a idea do homem acima da política. O que estamos a ver neste mensis horribilis de Sócrates é o resultado de erros, fraquezas e desgaste do governo. Mas julgo que não representa uma mudança estrutural na acção, postura e estratégia do primeiro ministro. Estamos apenas num momento no qual a “política” está mais visível.

Remodelação

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 29 Janeiro, 2008

Primeiro-ministro substitui três membros do Governo. Tenho enormes reservas em relação à remodelação mais relevante, a da Saúde. Independentemente do mérito (ou falta dele) de quem vem a seguir, ainda não escrevi no codfish sobre as maldades do Ministro da Saúde Correia de Campos, porque considero que muito do que estava a implementar fazia todo o sentido. Para lá do ruído das ambulâncias que demoraram mais tempo ou do populismo que se instalou à volta deste tema, faz todo o sentido que “urgências” que não o são, com médicos a receber horas extraordionárias, se transformem naquilo que são: consultas normais em horas de expediente. Claro que houve falhas do Ministro em termos comunicação das políticas e em casos concretos (Elvas), mas Correia de Campos estava finalmente a começar a pôr o dedo na ferida que realmente importa. Além disso, é um péssimo sinal de fraqueza remodelar o reformador Ministro da Saúde numa altura em que se quer mostrar confiança para o país. Sería muito mais sensato remodelar o ministro Mário Lino, que para todos os efeitos não está lá a fazer nada.

PS: Apesar de termos o mesmo apelido, não tenho nada a ver familiarmente (ou de outra forma) com o exonerado ministro.

Secção “Livros sobre Portugal”

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 23 Janeiro, 2008

Vítor Constâncio, citado pela TSF:

Caso se confirmarem as expectativas, neste momento, de uma possível recessão nos EUA, isso terá consequências na Europa, incluindo Portugal, o que poderá conduzir uma ligeira revisão em baixa das recentes previsões económicas

It’s the expectations, stupid

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 23 Janeiro, 2008

Ontem e hoje estive no “Business Roundtable with the Government of Portugal”. Ontem José Sócrates, Costa Pina e António Borges; hoje Manuel Pinho, Vitor Constâncio e António Vitorino. Após uma intervenção inicial do primeiro ministro (amplamente divulgada na imprensa de hoje), as sessões decorreram em “off the record”. Adorava fazer-me de interessante e insinuar que nessas sessões fechadas foram ditas coisas muito excitantes. Mas não houve nada de especial. A única vantagem do off-the-record é o facto de os protagonistas estarem talvez um bocado mais relaxados e (notório no caso do primeiro-ministro) menos crispados.

Para uma plateia de empresários, a mensagem do primeiro ministro (na sua intervenção aberta aos jornalistas, pelo que posso comentar) foi confiança, confiança, confiança. O investimento privado está a crescer, a consolidação orçamental é sustentada, o rumo está definido e não vai ser alterado. Como refere João Miranda, num post no Blasfémias, o governo está a gerir expectativas. Ao contrário do que é dito no post, acho que a gestão de expectativas não é uma ideia infantil nem é uma caracteristica lusa. As expectativas são um elemento central da economia e todos os chefes de executivo têm que entrar nesse jogo de vez em quando. Mas dito isto, trata-se de um jogo de alto risco, a usar com conta e medida e no qual o passado do político entra de facto na equação.

E é um problema político sofisticado. Sócrates mostra optimismo num dia em que os mercado colapsam por todo o lado. Tal poderá sugerir que o mau timing destas manifestações de confiança, pois arrisca-se a transmitir um certo afastamento da realidade (recordam-se da “tese do oásis”, de Braga de Macedo?). Mas por outro lado, se há dia em que convém ter uma reacção é quando os agentes estão a absorver um movimento brutal do mercado e procuram informação e sinais de vários lados, incluindo do governo. Neste caso específico, penso que Sócrates exagerou no optimismo e que a sua mensagem teria mais força se tivesse sido mais moderada.

Secção “Livros sobre Portugal”

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 22 Janeiro, 2008

Título do Jornal de Negócios de hoje:

José Sócrates: “Portugal vai voltar a acelerar em 2008” – Optimismo oficial imune à crise das bolsas.