CODFISH WATERS

Creativity loves constraints*

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 21 Maio, 2008

No extraordinário e infelizmente descontinuado blog Creating Passionate Users, de Kathy Sierra, falava-se às vezes da pouco óbvia e nada intuitiva ideia de que a criatividade precisa de constrangimentos.

Existem dois grandes mitos na história de arte: o de que os grandes artistas são anti-sistema, marginalizados e pobres (ideia popularizada em finais do séc. XIX, tipo La Bohème) e o de que os artistas precisam de total liberdade criativa para produzir o seu melhor trabalho. Compreende-se que estas ideias feitas sejam perpetuadas por artistas e críticos. Mas a verdade é que esta imagem romântica deve ser atraente para as pessoas em geral, pois algo tem que explicar a sua permanência perante a evidência histórica. Ao longo dos séculos a maior parte dos grandes artistas esteve ligada ao poder e serviu o poder. Isto não é necessáriamente uma crítica, é uma constatação. Quanto ao segundo mito, o dos constrangimentos, a questão é mais subtil. Gostamos de acreditar na liberdade total do artista. Mas o facto é que as restricções da época, do estilo dominante, e as que o próprio artista estabelece, são indissociáveis da obra e não são necessáriamente nocivas. Os grandes artistas revelam a sua genialidade no confronto com os espartilhos da sua obra, como Camões fez no uso do decassílabo nos Lusíadas, por exemplo. 

Claro que este conceito tem sido rejeitado ao longo do séc. XX, com a ideia da rebeldia na arte e com a glorificação da quebra de regras e tradições. Um artista é (deve ser) totalmente livre. Mas a rejeição do constrangimento talvez seja o maior constrangimento auto-imposto da história de arte. Mas para esta ainda mais complexa questão já não tenho verbo, pelo que me resta citar alguns dos poucos artistas do séc. XX que tiveram a “coragem” de ser contrarians nesta questão, e que Kathy Sierra relembrou neste contexto:      

I don’t believe in total freedom for the artist. Left on his own, free to do anything he likes, the artist ends up doing nothing at all. If there’s one thing that’s dangerous for an artist, it’s precisely this question of total freedom, waiting for inspiration and all the rest of it. Federico Fellini

Man built most nobly when limitations were at their greatest. Frank Lloyd Wright

In art, truth and reality begin when one no longer understands what one is doing or what one knows, and when there remains an energy that is all the stronger for being constrained, controlled and compressed. Henri Matisse

* – Título roubado deste excelente artigo de Marissa Mayer, vice-president for user experience da Google, que reflecte sobre esta questão num âmbito empresarial.