CODFISH WATERS

Onde está Manuela Ferreira Leite?

Posted in Portugal by António Luís Vicente on 11 Junho, 2008

É lamentável que o PSD esteja a aproveitar o ambiente de tensão e receio provocado pelos bloqueios ilegais de uma minoria de camionistas para tentar ganhar uns fáceis pontos políticos.

Do lado do PSD, o deputado Hugo Velosa afirmou concordar com as críticas feitas pelo CDS-PP, afirmando que o Governo “baixou os braços” perante a “crise que era previsível”. O social-democrata defendeu que o Executivo de Sócrates “tem que intervir” mas não especificou de que forma o deve fazer, afirmando que o Governo tem que “fazer qualquer coisa” para responder aos “sectores mais afectados”. Para o deputado, teriam dado “bom jeito para resolver problemas deste tipo”, os “600 milhões de euros” da receita do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos que o Governo “desviou para as Estradas de Portugal” (Público).

É lamentável que o PSD não esteja na primeira linha na crítica à violação da liberdade de circulação e do direito de trabalhar. Sei que a UGT tem uma agenda muito própria ao redigir o comunicado hoje emitido. Mas ao menos teve o mérito de condenar frontalmente as acções dos camionistas: 

“Face às actuais paralisações dos transportes exige-se do Governo e das autoridades uma actuação consequente no decorrer das suas obrigações e do respeito pelo Estado de Direito”, acrescenta a UGT, denunciando uma “pressão intolerável” de muitos empresários sobre os poderes públicos. (Público)

Manuela Ferreira Leite teria surpreendido pela positiva se tivesse aproveitado a primeira grande questão política desde a sua eleição para marcar a diferença – para mostrar que está disposta a assumir posições claras face às questões importantes (e penso que o estado de direito é uma questão importante) não apenas para comentar e criticar o governo. 

Manuela Ferreira Leite tem a difícil tarefa de diferenciação face a José Sócrates. Mas penso que devia resistir a este estilo de oposição que diz branco quando o governo diz preto. Penso que a nova presidente do partido perdeu uma boa oportunidade. E penso que o país precisa de um PSD que se apresente mais seguro de si próprio, capaz de criar o seu caminho, de acordo com os seus valores e as suas propostas.

Rebel Sell

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 8 Março, 2008

Os posters da era soviética são hoje cobiçados por coleccionadores e justamente admirados por muita gente, principalmente por designers gráficos. Há de facto exemplos extraordinários desta arte, alguns dos quais podem ser vistos aqui. Existe até um blog que optou pela estética soviética.

Mas para além da estética, é curioso constatar que usamos estes materiais de propaganda soviética sem pestanejar, pensando pouco no que em tempos representaram. Hoje compram-se reproduções de posters em centros comerciais de Moscovo e regateiam-se bonés à Mao em quiosques da Cidade Proibida. Usam-se como objectos de design, como acto nostálgico ou irónico, como curiosidade histórica.

Há quem fique chocado com este uso da estética russa, relembrando os horrores do regime e realçando que eramos incapazes de pendurar nas nossas casas posters do partido nazi. Ninguém usaria uma t-shirt com um retrato do propagandista e facínora Goebbels a olhar romanticamente para o horizonte, mas muitos não hesitam em ostentar com orgulho o propagandista e facínora Che Guevara.

Sou sensível a uma versão moderada deste argumento. Não há dúvida de que existem de facto dois pesos e duas medidas. A generalidade das pessoas tem maior tolerância em relação ao “fascism with a human face” (na inspirada expressão de Susan Sontag para descrever o comunismo). Mas em última análise, a divertida mercantilização destes símbolos do marxismo e do anti-capitalismo assim como a sua transformação em souvenirs, compensam, pelo menos para mim, esta algo incoerente tolerância em relação à propaganda soviética. É como se cada compra, cada recuerdo, representasse mais um prego no caixão histórico do regime. Por outro lado, o argumento de que toda a estética fascista foi escondida debaixo do tapete não é completamente verdadeiro. Sei que praticamente o único exemplo que se encontra é o de Leni Riefenstahl, mas não deixa de ser uma importante excepção.

Assim, tendo a encarar esta questão com algum desprendimento. Até porque se me cruzar no Bairro Alto com duas pessoas, uma envergando a t-shirt da esquerda, outra a da direita, não tenho qualquer dúvida em apontar qual é o mais criativo e inconformista.

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PS: vale imenso a pena ler o livro ao qual roubei o título deste post, que é sobre como a “counterculture became consumer culture”.

Esperança

Posted in Portugal by Francisco Camarate de Campos on 4 Março, 2008

No seguimento do post do António sobre o novo partido (MEP), tenho que dizer que entre as três palavras, tenho as minhas preferências. “Portugal” é redundante, mas é inócuo; em relação a “Movimento”, pensei que o estigma anti “Partido” já tinha terminado, mas compreende-se porque o utilizaram; agora “esperança”, esperança, ESPERANÇA, esperança dá-me urticárias.

Nesta palavra esperança está implícito o fado nacional – que somos fracos, que não valemos patavina, que aqui há pouco que se aproveite, que com este sistema não vamos longe. Diz também que com o Movimento há esperança, que com o MEP vamos deixar de ser este povinho à beira mar plantado. Ora isso é coisa que se diga? – fará sentido que um Partido deixe entender no próprio nome que Portugal vale pouco e que com eles é que vamos lá? E vamos aonde, já agora?

Don’t guess me wrong, não sou contra o novo partido. Antes pelo contrário, acho óptimo que apareçam novos partidos, se possível com novas ideias, mas este nome é mau de mais para ser verdade. É que imagem não é tudo, mas como dizia o outro, é quase tudo.

PS: Por favor não confundir este “esperança” com o “hope” de Obama. Neste último, está-se a falar de vangloriar o melhor da América, de regressar ao melhor dos seus valores. Na “esperança” do MEP, o tema é mais mesquinho, é mais do género “somos mesmo fraquinhos, mas, uff, há esperança”