CODFISH WATERS

Liberal-pessimista

Posted in Uncategorized by António Luís Vicente on 27 Maio, 2008

Há quem seja liberal-conservador e quem seja conservador-liberal. Há liberais-paternalistas. Há quem seja liberal e conservador, afirmando não ser conservador. De forma muito coerente, os liberais optam, e muito bem, pela livre-escolha de rótulos. Eu sou liberal-pessimista.  

O que é que isso quer dizer? Quer dizer que sou liberal mas que tenho quase a certeza absoluta de que os liberais nunca deixarão de ser uma muito pequena minoria, que se torna ainda mais pequena se forem excluidos desta categoria (o que me parece correcto) os crazy libertarians e os anarco-capitalistas. Não vou entrar em pormenor sobre as razões do meu pessimismo. No fundo, simplificando muito, acho que o liberalismo não é uma natural disposition humana. Suspeito que não demorará muito tempo a que se estabeleça com maior firmeza aquilo que já é sugerido hoje pela psicologia cognitiva e evolucionária e pela neurologia – que a generalidade das pessoas valorizam a protecção do Estado e que estão dispostas a sacrificar a liberdade e outras restricções e custos do Estado em troca de vantagens reais ou imaginadas (não por isso menos importantes) do mesmo. Como liberal lamento isso, mas também como liberal farei muito pouco para contrariar esta tendência. 

Woody Allen dizia que “death is an acquired trait”. Acho que ser liberal também o é. 

Descendo um bocado à terra, para a área das políticas públicas, este meu pessimismo é justificado por exemplo pela evolução do peso do Estado nas últimas décadas, sob governos de esquerda e de direita, ou pela forma como a maioria dos empresários lida com o Estado e com a concorrência. Em relação a este último aspecto, sou forçado a concordar em parte com Daniel Oliveira, neste artigo no Expresso, quando refere que:

Durão Barroso defendeu a privatização da CGD. Passos Coelho também defende. Um esqueceu e outro esquecerá, porque os empresários nacionais precisam de um banco público para as horas difíceis. Os nossos liberais fazem voz grossa contra a intervenção do Estado na economia mas desaparecem quando se assinam acordos com a Lusoponte ou quando empresas de construção civil financiam os partidos de poder à espera de bons negócios. 

Em relação à redução do peso do Estado, confesso que há uns anos era optimista. Mas gradualmente fui perdendo a ingenuidade, ao constatar fenómenos como o aqui resumido por Fareed Zakaria no seu The Future of Freedom:

Since the early 1980s, three Republican presidents … one Republican speaker, and one Democrat president have tried to pare down government spending. But they bumped up against the reality of interest-group power. As a result, in eight years Reagan was able to close exactly four government programs of any note…Bush senior…proposed killing 246 smaller programs. The savings would have been tiny: about $3.5 billion, or .25 percent of federal spending. Still he turned out to be too ambitious…only eight program were killed amounting to a grand savings of $58 million…Newt Gingrich and his freshman horde came to power on a platform dedicated to changing the way Washington worked…four years later, the Republican revolution was in shambles…The Republican began in 1995 with a budget proposal that would have eliminated about 300 programs…saving more than $15 billion. Then the lobbying began…It turned out that most Americans wanted smaller government in the abstract, but they were not the ones calling their congressmen. A few months later the Republicans ended up passing a budget with total reductions of $1.5 billion, only one-tenth of what they had planned, and totaling only .001 percent of the overall budget.*  

Mas ontem descobri uma ilustração ainda mais deprimente, num artigo que tem sido muito discutido por estes dias, The Fall of Conservatism, de George Packer, New Yorker (que é algo atenuada pela possibilidade da parte anedotal não ser verdadeira): 

According to Buchanan, who was the White House communications director in Reagan’s second term, the President once told his barber, Milton Pitts, “You know, Milt, I came here to do five things, and four out of five ain’t bad.” He had succeeded in lowering taxes, raising morale, increasing defense spending, and facing down the Soviet Union; but he had failed to limit the size of government, which, besides anti-Communism, was the abiding passion of Reagan’s political career and of the conservative movement. He didn’t come close to achieving it and didn’t try very hard, recognizing early that the public would be happy to have its taxes cut as long as its programs weren’t touched. 

* – Aos liberais-optimistas que acham que este falhanço se deve apenas aos grupos de interesse, sugiro a leitura de “The myth of the rational voter“, de Bryan Caplan. 

Reagobama

Posted in Estados Unidos by António Luís Vicente on 3 Março, 2008

 

Christopher Caldwell escreve no Financial Times deste fim-de-semana um excelente artigo sobre as diferenças entre Obama e Clinton (oferecendo também ele uma almofada a Obama) e pega num tema que tem vindo a ser recorrente nos últimos meses: a relação entre Obama e Reagan.

To read Mr Obama’s political autobiography, The Audacity of Hope, is to see an interest in Reagan that borders on fascination. “I understood his appeal,” Mr Obama writes.

O argumento é que Obama, tal como Reagan, não esconde a sua ideologia. Em 1980 o candidato republicano conseguiu atrair milhares de votantes independentes e democratas sem precisar de fazer um discurso ao centro. A eleição de Reagan contrariou a tese (da rational choice theory) que defende que um candidato tem que fazer campanha ao centro e “capturar” o votante mediano para ganhar eleições. 

O argumento até é interessante, mas parece-me prematuro. Pode ser que Obama consiga seguir os passos de Reagan e “violar” mais uma vez as regras normais que conduzem a uma vitória eleitoral – se alguém está em posição de o fazer é ele. Mas ainda é cedo para fazer este tipo de comparações: em primeiro lugar ainda estamos na fase das primárias, pelo que Obama ainda tem poucos incentivos para avançar para o centro – vamos ver se a coisas mudam quando (e se) estiver sozinho face a McCain. Em segundo lugar, Reagan mudou completamente os termos do debate, algo que Obama ainda não fez. Recentemente foi publicado um livro que usa o exemplo de Reagan para ilustrar um dos conceitos mais interessantes da ciência política recente – “heresthetics” – um nome inventado por William Riker para descrever situações nas quais um político consegue mudar radicalmente os termos do debate. Hoje já nos esquecemos, mas Reagan lançou duas ideias que estavam completamente fora da agenda e que tinham conduzido a derrotas em anos anteriores – forte liberalização da economia (quando, parafraseando as palavras de Nixon, “todos eram Keynesianos” e as ideias de Goldwater eram mal recebidas nas urnas) e intensificação da retórica anti-soviética (numa altura em que se vivia a détente ou “normalização” no relacionamento entre as duas superpotências).

Até ao momento não ouvi Obama defender ideias e políticas que se possam comparar a estas em termos de afastamento do mainstream (não, “change” e “hope” não contam). Não quer dizer que o tenha que fazer para ganhar ou que não o venha a fazer – o ponto é que, pelo menos por enquanto, comparar Obama com Reagan é forçar a história.

Anúncios e Ursos

Posted in Uncategorized by codfish on 13 Fevereiro, 2008

Continuamos a receber sugestões de anúncios usados em campanhas políticas. Mas ainda não recebemos portugueses! Penso que por cá o direito de antena tem sido responsável pela reduzida criatividade política – lá por fora, nada como um limite de 30 segundos para manter a mensagem em foco e para estimular a imaginação.

Sugestões de vídeos via comentários ou por e-mail (codfishwaters@gmail.com).

Hoje acrescentámos um simples mas eficaz spot da primeira campanha de Clinton, que verte em imagem o “it’s the economy, stupid”, assim como um clássico de Reagan, à volta do poder metafórico que o urso tinha na guerra fria.

Aliás, os americanos devem ter uma obsessão política por ursos – o recente mas já clássico artigo de Robert Kagan também usa o urso numa metáfora sobre o a forma de lidar com o inimigo – se bem me lembro, na analogia de Kagan (com o intuito de mostrar como diferenças no poderio militar ditam diferentes estratégias) os americanos enfrentam o urso porque têm uma espingarda e os Europeus escondem-se do urso porque só têm uma faca…